Na terceira semana, eu já tinha matado a charada: o ditado de inglês que a professora nos passava, toda segunda-feira, era o texto que ela tinha lido na semana anterior e com o qual tinha mais se identificado.
Ela costumava ler dois, mas um deles era o que mexia com ela. Era quase que um transe – ela não só interpretava o que estava sob seus olhos. Seu corpo o expressava, sobretudo pela respiração, o que fazia seu colo subir e descer – juntamente com nossas imaginações.
Sempre o último da classe – seguindo uma tradição que eu tinha inaugurado há alguns anos e mantinha com fidelidade e regularidades exemplares – resolvi tirar a melhor nota na matéria. E, quando ela declamou aquele poema, naquela aula, sorri para mim mesmo.
Passei o domingo todo fazendo a melhor cola do mundo; escrevi e rasguei tantas folhas que, ao final, já conhecia o texto de cor. Finalmente, no final da tarde, a cópia perfeita estava pronta.
No dia seguinte, quando ela nos instruiu a pegar uma folha em branco e começar a escrever o que nos ditaria, sorri de novo ao ouvir a primeira palavra. Meu palpite estava correto: era o texto que se encontrava pronto, imaculado e perfeito, embaixo da carteira escolar.
Enquanto meus colegas sofriam, eu alegramente fazia de conta que me esforçava e, em alguns momentos, escrevia as palavras antes que fossem pronunciadas (tempos depois, caiu a ficha de que preparar cola era a melhor maneira de se aprender alguma coisa).
Na hora de entregar o ditado, rapidamente troquei as folhas.
Na aula seguinte, a professora começou a devolver as provas e, na minha vez, disse: “Perfeito. Nenhum erro. Tem até um parágrafo a mais.”
Ela tinha encurtado o poema, e meu ditado o trazia completo.
Mandando à diretoria para me explicar – outro costume semanal que cumpria à risca -, fui saudado por um sorriso sarcástico que me perguntou: “O que foi desta vez?”.
“Estudei demais”, respondi com toda honestidade do mundo.
Todo excesso é prejudícial, e o excesso de gente é mortal.
Nestes primeiros dias de 2012, São Paulo está tão pacata quanto uma cidade de interior (pelo menos, daquelas que projetamos em nossas mentes). Sem trânsito, com poucas pessoas nas ruas, sem filas nem buzinas.
Parece-me sobrar um pouco mais de tempo para tomar um café, os interlocutores soam mais afáveis e, em alguns momentos, o movimento geral pausa e reina uma calma profunda.
E aí me vêm à lembrança parentes, amigos, colegas, fornecedores, clientes, inimigos declarados e ocultos e os imagino felizes onde quer que estejam, longe daqui, deste lugar tão infernal quando eles aqui estão.
Feliz 2012 e que lá fiquem, são meus votos sinceros!
Como disse Charles M. Schulz, adoro a humanidade, o que não suporto são as pessoas (I love mankind; it’s people I can’t stand).
O bom de ser ateu convicto é que, quando peço algo a Deus, ele me atende quase que prontamente, devido à grande necessidade de conversão de almas a seu minguante rebanho.
do not blame me for asking
because i would blame myself
twice as much
if i did not.
and may we never silently blame ourselves
for not asking.
we are so near and yet so far.
this near
that far.
Amarração do amor! Traz a pessoa amada de volta em 10 dias.
Julga-se o charlatanismo dos videntes não pelo o que eles se propõem a fazer, mas pela óbvia falta de resultados. São péssimos prestadores de serviços, e a Prefeitura Municipal é instada a coibir os abusos e tomar as devidas providências.
A começar pelo envio compulsório, ao serviço público de saúde mental, daqueles que procuram estes tais profissionais, correto? Quem, em sã consciência, quer a pessoa amada entregue sob qualquer forma de coerção?
Ela está do seu lado por assim desejar. Pelo menos deveria. E vice-versa.
(tema sugerido por Samantha, a quem fui de bom grado, e que só recorreu à magia do seu sorriso)
Estou viajando pelo Brasil, Argentina e Uruguai. Ao assistir um pouco de televisão e ler os jornais locais, fica evidente a alma comum do ser humano, distinta na superfície, talvez, mas assustadoramente parecida em seu íntimo.
Fofocas, demonstrações claras de inveja, procura incessante pela felicidade, ilusão e atração pelas fórmulas mágicas, insatisfação eterna do que se tem e anseio de se possuir o que é do outro.
As notícias se repetem, quando não com as mesmas personagens, no mínimo com o mesmo enredo. As mídias impiedosas ditam o que está na pauta; estes são os assuntos que importam, os outros aguardam seus quinze minutos fama.
All advertising advertises advertising, observou Marshall McLuhan. Toda notícia noticia notícias. Toda notícia nos torna dependente da próxima. Toda notícia traz implícito que a falta de notícia é tempo jogado fora, é desperdício de tempo útil e hábil, é quase que um pecado.
Imagine-se vivendo na Finlândia. O que importariam as notícias vindas do Brasil, o que importam o que e do que se fala em Helsinki? Navegue na internet e leia, se puder, um jornal suiço, um australiano, um boliviano, um português, um chinês (escrito em inglês). Diga-me honestamente o que a leitura deles te trouxe, diga-se sobretudo o que a ignorância prévia e total dos mesmos te privou.
A informação – palavra mais culta, neologismo moderno do termo notícias – sempre foi um produto, a despeito das promessas em contrário. O que se informa serve a um propósito, é uma das versões possíveis do fato, pode ser expresso de diversas maneiras, é passível de variadas interpretações, quase sempre é acompanhado de um enquadramento moral.
É um quadro que se emoldura e se apresenta como definitivo a nossos olhos, com a perspectiva daquele que mandou confeccioná-lo ou o pintou.
A alienação da qual falávamos, há décadas, referia-se ao desconhecimento dos processos de persuasão e não às notícias que ignorávamos. A alienação consistia em não reconhecer a existência deliberada dos mecanismos de controle de nossas opiniões.
…
Temos o direito de escolha, sim; mas quem determina a lista da qual podemos escolher?
A doença o pegou de jeito e ele optou por não se privar de comer e beber.
Tornou-se cliente mais assíduo ainda do restaurante de Maria.
Era mão aberta com os sempre presentes amigos – amigos estes da mão aberta e não dele.
Sempre pagou a conta e um dia pediu fiado, pois tinha esquecido a carteira.
Nunca mais voltou.
Nem os amigos, mas isto já se sabia.
Maria acha que ele se foi e que se encontrarão um dia.
Ele manda dizer que não há pressa. E que agradece a confiança nele depositada.
Foi mais um daqueles almoços nos quais, além da comida, eu tive que engolir outro sermão sobre trabalho e crescimento profissional. Comentei com meu pai, para tentar mudar de assunto, que aquele cara sentado na outra ponta do balcão era meu patrão, mas ele nem ouviu.
Ao sairmos, posou a mão no ombro do dito cujo e lhe disse:
- O senhor não dê moleza ao meu filho. Se ele não trabalhar direito, mande-o embora.
O outro virou-se, legitimamente surpreso, e respondeu:
- Muito pelo contrário! Seu filho é um ótimo funcionário e estamos felizes por contar com ele na empresa.
Meu velho disparou:
- Então por que o senhor não dá aumento para ele?
Sábado bem de manhã de um final de semana prolongado, o supermercado barateiro cheio de aposentados.
Carrinhos colidindo, filas que não andam, gente parada no meio dos corredores tentando se lembrar do que comprar, um mar de cabeças brancas quando não calvas – um exercício budístico para este que caminha para o mesmo destino.
E não que a rádio de música ambiente começa a tocar “Born to be wild”, versão original, em um volume um pouquinho mais alto?
É Cocoon se encontrando com Easy Rider – e o velho hippie aqui de prova ocular que um não excluí o outro, de que na realidade um pressupõe o outro.
A mesma sensação de ontem, ao estar com meu filho menor e meu pai.
Vejo-me nos dois, naquilo em que fui e no que serei, e percebo a dificuldade de comunicação entre as duas pontas. O que está por vir não faz parte da visão nem do sentimento do jovem, o que passou não é nem mais mera lembrança para aquele que já viveu muito.
O conflito de gerações é, na realidade, a incapacidade de se ver no futuro e de se reconhecer no passado.
O homem fortemente algemado era conduzido por outros quatro armados; ao chegar perto do rio, o grupo rumou em direção a uma imensa árvore, sob a qual os aguardavam cerca de trinta pessoas.
- Já me deram o castigo suficiente ao mandar-me para esta terra, e estar aqui é a paga pelos crimes que cometi em Portugal. Do que me acusam vocês?
- João, só com tua morte és capaz de quitar tua culpa perante os homens. Exilá-lo para o Brasil é uma pena muito branda para um bandido como você.
- Bandido como vós todos, ou por acaso julgam ser melhores do que eu? Eu bem o sei porque querem me eliminar; estou a atrapalhar vossos planos e …
- Chega! Esta conversa não leva a lugar nenhum, e todos nós temos negócios a cuidar.
O silêncio continuou após as palavras enérgicas do mais velho entre os homens, enquanto ele conferia o nó corrediço da corda que pendia de um galho alto e resistente. Montaram João em um cavalo branco, passaram-lhe o laço no pescoço e aguardaram a ordem do líder.
- Só Deus pode dispor da vida dos homens.
A pequena multidão virou-se para formar uma barreira humana e impedir a aproximação do jesuíta negro, que acaba de sair da pequena trilha que cortava o manguezal.
- Padre, Deus tem muito o que fazer; os assuntos menores resolvemos nós.
- Não pronuncie Seu nome em vão, Mathias, e não acrescente mais um sacrilégio à tua extensa lista.
Ao por do sol nas margens do Rio São João, naquela quente dia de verão de 1703, dois corpos dependuravam-se daquela majestosa figueira. As águas corriam lentas e silenciosas em direção ao mar, os passáros calaram-se e a leve brisa encarregou-se de espalhar aos quatro cantos a praga rogada pelo homem de Deus.
- Que este vilarejo permaneça no limbo pelos próximos 300 anos, e que a água que todos bebem seja turva e salgada para sempre!
(Este é o primeiro capítulo de um livro que escrevo mentalmente, há 8 anos. Um dia há de sair.)